sábado, março 12, 2011

Conto do fazendeiro que amava uma mulher

Esta é a história de um fazendeiro humilde, velho, que conserva um amor platônico por uma mulher desde a infância. Ele nunca se casou e hoje vive só na casa dos pais, que já morreram. A mulher é viúva, velha e já tem netos. Todos os dias, quando vai à cooperativa vender o leite tirado em sua fazenda, observa a mulher voltar do mercado com uma sacola de verduras e legumes para o almoço. Ela esboça um sorriso cansado, porém terno, e ele acena com o chapéu fazendo curvando a cabeça para baixo.

O fazendeiro sempre fica inquieto, sente vontade de se aproximar cada vez que a vê. Mas, não tem coragem. Ela ficaria chocada caso ele se declarace. Em seu interior, esse homem a ama com toda sua força, como se ainda fosse jovem e ambos tivessem a vida inteira pela frente.

O desejo de declarar-se crescer e, entre seus devaneios de encontrá-la e declarar seu amor a ele, os dias passam e a viúva adoece e fica acamada. Ao saber da situação na qual a mulher encontra-se, o fazendeiro toma a decisão de visitá-la e finalmente fazer sua declaração de amor.

Fica surpreso (e frustrado) ao encontrar a casa dela cheia de pessoas, amigos e familiares. Mais uma vez, não consegue declarar seu amor. Ao vê-lo, ela demosntra a satisfação pela visita inesperada. Porém, está fraca e não consegue mais falar.

O fazendeiro vai embora derrotado e afunda-se em seus devaneios. Passa a visitá-la diariamente, não mais do que 20 minutos. Certo dia, ele chega e a filha mais velha da senhora deixa-os a sós no quarto para buscar um café. Naquele momento, a senhora faz sinal para ele se aproximar e tira sob o travesseiro um papel velho, dobrado, entregando-o ao homem.

A filha retorna trazendo o café. Imediatamente, ele guarda o papel no boldo do paletó. Fica ansioso para ir embora e ler. O que poderia ser? Estaria ela precisando de alguma coisa?

Ao chegar em casa, abre com cuidado aquele pedaço de papel e percebe que é antigo. A tinta das palavras desbotada e um pouco borrada não o impede de ler. E assim, o fazendeiro descobre que o tal papel é um bilhete escrito por ele e deixado, anonimamente debaixo da carteira dela, no grupo onde estudavam.

Já se passara mais de 70 anos... Como ela sabia que aquelas poucas linhas foram escritas por ele? Não havia assinado e eles nem se falavam na época, o que era comum na época. O que isso significa?, pensou. Por que ela guardou esse bilhete por tantos anos? Mesmo casada, ela o guardara.

Foi então que sua mente tornou-se lúcida, ao lembrar-se do olhar dirigido a ele no momento em que colocou em suas mãos aquele papel dobrado. Ela o amava. Assim como ele, cultivara um amor platônico, velado pelo respeito e pela distância.

Assim, aquele homem cansado percebeu que não precisava mais se declarar e continuou a visitá-la todos os dias, metodicamente, no mesmo horário. Sentava numa cadeira em seu quarto e fitava-a na cama. Não podiam trocar palavras, mas elas não eram mais necessárias. Seus olhos diziam o que o coração de cada um precisava.