quinta-feira, janeiro 22, 2009

Homenagem ao diretor que amava as mulheres - Francois Truffaut





quarta-feira, janeiro 21, 2009

Dona Maria entrou no ônibus

Sexta-feira. Sete horas da noite. Chuva, ônibus lotado, engarrafamento. Dona Maria entrou no ônibus com sua sacolinha. Não sei se ela tinha uma bolsa em casa ou só tinha a sacolinha de plástico de uma loja que, de tão antiga, nem dava para identificar no nome.

Não notei sua presença. Já tinha passado a roleta e ela estava na parte anterior, reservada para os velhinhos. Vi que estava em pé, com a sacolinha pendurada no pulso e as mãos segurando nas alças dos bancos para não cair. Apesar de reservados para os vellhos, os bancos da parte anterior do ônibus, em horário de pico, acabam sendo de quem chegar primeiro, principalmente, porque o ônibus fica tão cheio que as pessoas não conseguem passar a roleta e, para não serem espremidas pelos passageiros que entram a cada parada, precisam sentar nos lugares dos velhos.

Dona Maria ficou discreta e só deu o ar de sua graça quando uma moça gordinha entrou no ônibus.

- Ô gorda safada!
- A senhora tá falando comigo?
- Tem alguma outra gorda aqui?
- A senhora está falando comigo?

A gordinha parecia um disco arranhado e ficou alguns minutos repetindo a frase enquanto Dona Maria xingava evocava todos os nomes possíveis para xingá-la.

Mas, a cena ainda precisa de um toque final. Este foi dado pelo cobrador, conhecedor de Dona Maria, logo começou a narrar antecipadamente os fatos.

- Estava demorando. Agora ela vai falar da falta de respeito da moça, que esbarrou nela. Velho é assim. Fica à toa o dia inteiro, mas nos horários de pico estão lá no ponto para pegar o ônibus. Depois reclamam que ninguém respeita. Se ela não tem nada pra fazer, por que não pega o ônibus um pouco antes? Sete horas da noite não é horário de velho estar fora de casa.

- Você é uma mal educada. Gritou Dona Maria.
- Eu? A senhora é que tá aí pendurada nesse banco e não pode dar licença para uma pessoa passar. Olha, minha senhora, eu não estava à toa não. Eu trabalhei o dia todo e ainda tenho que ficar ouvindo isso na hora de voltar para casa. A senhora me desculpe, mas é uma grossa.
- A gorda não para de reclamar. Gritou Dona Maria.
- E em banco? Alguém já viu velho em banco? - começou o cobrador - Eles ficam à toa o dia inteiro, mas têm que ir ao banco sempre no horário de almoço, que é para atrapalhar quem está com pouco tempo e só tem aquele horário para resolver mil e uma coisas. Eles podem ir ao banco às 2, 3, até 4 horas da tarde. Mas, vão sempre de meio-dia às duas, que é para tumultuar. Isso é que dá sentindo à vida, não é Dona Maria? Essa aí pega o ônibus todo dia nesse horário de pico e arruma confusão todos os dias com algum passageiro. Encostou nela, grita.

O sinal tocou. O ônibus chegava ao ponto da Gordinha. Ela desceu e Dona Maria baixou a crista. A viagem segui em paz.