domingo, novembro 09, 2008

Delírios da madrugada

Retornar depois de mais de um ano não é fácil. Perde-se a prática, perdem-se as palavras. Dizer o que? Pra quem? Uma história que não sai da cabeça. Naquela noite, eu bebi muito. Tanto, que só me dei conta do amanhecer quando o sol quase cegou meus olhos com sua luz. Acordei? Não sei ao certo. Estava na praia, deitada na areia escura com um siri ao meu lado, esmagado. Seria eu sua assassina impune? Mas, a cabeça doía e acabei deixando o siri pra lá. Afinal, nesse mundo, vida de siri vale tanto quanto vida de favelado. Fazer o que?

Levantei, tudo escuro, limpei a areia do rosto com as mãos, que estavam cheias de areia. Piorou. Comecei a andar rumo ao mar. Se não era capaz de tirar toda aquela areia do meu corpo, o mar seria. E o siri? A cosnciência ambiental pesou. Meia volta e fui pegar o siri. Siri em mãos. Era preciso fazer algo. Um enterro, um velório. Antes de mais nada, um banho, um bom banho de mar. Assim, eu e o siri nos livraríamos daquela areia pegajosa.

Os primeiros passos na água desanima. Estava gelada. Antes de entrar no mar, era preciso um preparo psicológico. Sentei na beira da praia com o siri na mão. Ninguém por perto. O mundo girava, o mar girava e o siri num vai e vem na minha mão.

Quando a onda quebrava na praia, a água vinha e molhava meus pés. O tempo foi passando e a água subia ainda mais. Não me importava mais com o frio. Nem o sentia, para dizer a verdade. E o siri ali, na minha mão, descansando em paz. A água já batia na minha cintura. Era animador. Com tamanha ressaca, não conseguiria mesmo entrar no mar. Sábio que é, decidiu me ajudar naquele momento difícil. Apenas me sentei e ele fazia o resto. A cada banho de mar, a areia desprendia-se do meu corpo.
Água no pescoço. Mais algumas horas e conseguiria lavar meu rosto. Não era minha intenção lavar os cabelos ali na praia, mas o mar não sabia.
Apaguei. Agora, não sei mais onde estou, não sei mais onde estava e muito menos quem sou. Só sei que o siri caiu da minha mão. Quando acordei no hospital não havia mais mar e muito menos siri. Eu estava em péssimas companhias...

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