quinta-feira, dezembro 14, 2006

Devaneios sobre Solidão

A solidão assume junto com o amor o patamar de um dos temas mais abordados por poetas, compositores, cineastas, escritores, pintores, escultores, fotógrafos. Obstinação de alguns, sofrimento de outros, não são poucos os artistas que já mostraram alguma das inúmeras faces desse sentimento que acompanha cada um de nós - seres humanos - em algum momento de nossas vidas.

Paulinho da Viola compôs uma das mais belas músicas que já ouvi sobre o tema. "Dança da Solidão", regravada por Marisa Monte. Assim escreveu:

Solidão é lava que cobre tudo
Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo
Solidão palavra cavada no coração
Resignado e mudo
No compasso da desilusão


Contudo, só fui pensar mais profundamente sobre a Solidão quando li uma pequena biografia de Orson Welles (Pensamento Vivo de Orson Welles). Ele afirma que o Homem é um ser sozinho. A solidão é a única certeza da vida humana. Nascemos sozinhos e morremos sozinhos e não há nada que possamos fazer para mudar isso. Exatamente por pressentir essa solidão eterna, passamos a vida buscando o outro, alguém que nos faça sentir que não estamos sozinhos, mesmo no fundo sabendo que a solidão nos habita desde a concepção.

Não foram essas as palavras exatas de Welles sobre a solidão, mas compreender o que ele disse e perceber que tem razão me deixou por muito tempo angustiada. Nunca gostei da solidão, de ficar sozinha em casa, por exemplo. Estar só me causava muito sofrimento. E assim, toda vez que me lembrava das palavras de Welles, estremecia. Acabava sublimando para não entrar em neura.

Hoje - lendo Cartas a Um Jovem Poeta voltei a esbarrar na solidão. Rilke - certo de que somos e sempre seremos seres solitários por natureza - numa das cartas - escrita em 23/12/1903, ao senhor Kappus - nos oferece nova visão. "O Senhor não deve ficar sem um cumprimento meu quando o Natal se aproxima e, no meio da festa, sua solidão pesa mais do que nunca. Mas se perceber então que ela é grande, alegre-se com isso; pois o que (pergunte a si mesmo) seria uma solidão sem grandeza? Existe apenas uma solidão, e ela é grande, nada fácil de suportar. Acabam chegando as horas em que quase todos gostariam de trocá-la por uma união qualquer, por mais banal e sem valor que seja, trocá-la pela aparência de uma mínima concordância com o próximo (...) No entanto, talvez sejam justamente essas as horas em que a solidão cresce, pois o seu crescimento é doloroso como o crescimento de um menino e triste como o início da primavera. Mas isso não deve confundi-lo. O que é necessário é apenas o seguinte: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo e não encontrar ninguém durante horas, é preciso conseguir isso. Ser solitário como se era quando criança, quando os adultos passavam para lá e para cá, envolvidos com coisas que pareciam importantes e grandiosas, porque esses adultos davam a impressão de estarem tão ocupados e porque a criança não entendia nada de seus afazeres."

Rilke sugere ao jovem poeta que aprenda a sentir e produzir em sua solidão. Mostra que embora dilacere o coração do poeta, a solidão é necessária para o crescimento, amadurecimento, reflexão.

Em outra carta, de maio de 1904, ele aconselha: "Não se deixe enganar em sua solidão só porque há algo no senhor que deseja sair dela. Justamente esse desejo o ajudará, caso o senhor utilize com calma e ponderação, como um instrumento para estender sua solidão por um território mais vasto. (...) Sabemos muito pouco, mas que temos de nos aferar ao difícil é uma certeza que não nos abandonará. É bom ser solitário, pois a solidão é difícil; o fato de uma coisa ser difícil tem de ser mais um motivo para fazê-la."

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